Wednesday, April 7, 2010

O mano do Fred

Irmãs que se prezem têm necessariamente de se cobiçar umas às outras, e a minha não é excepção.
- Tens um gato? Oh, queria tanto um... mas tem de ser gato, não quero gatas - declarou ela ao telefone. - A pessoa que to deu não tem mais nenhum?
- Acho que tinha, mas tenho de lhe perguntar. Pode ser que ela já tenha arranjado dono para os outros.
- Pergunta-lhe... - E o tom da minha irmã era meio de exigência, meio de súplica.
Liguei à Andreia e sim, ela tinha um gatinho, laranja-dourado e branco... mas havia um senão.
- Sabes, ele tem um problema...
-O que é? Um olho de cada cor? É cego?
- Não, mas... é esquisito. Tem um defeito nas patas.
- Não anda? - Já estava cheia de pena do gatinho e ainda nem sequer o tinha visto.
- Ah, não, não é nada disso - apressou-se ela a esclarecer. - Tem um pequeno defeito, mas anda vê-lo e depois decides, ok?
Imaginava o que ela estaria a pensar naquele momento. «Porra, para que é que disse que o gato tem um defeito nas patas? Assim ninguém o vai querer e não vou conseguir despachá-lo!»
Umas horas depois, apresentei-me em casa dela. Quando ela o trouxe ao colo, era uma pequena bolinha gorducha, com a cabeça, dorso e cauda cor de caramelo, e o resto branco. O pêlo parecia ser a coisa mais suave que alguma vez vira.
Ela parecia receosa de mo mostrar. Pegou-lhe cuidadosamente numa das patas dianteiras e mostrou-ma.
- É isto, ele tem dedos a mais...
E, de facto, tinha: se normalmente as patas dianteiras têm cinco dedos, aquele bichano tinha seis numa e sete na outra. E nas traseiras, supostamente com quatro cada, tinha cinco.
- Oh, coitadinho... e ele consegue andar assim?
Como resposta, ela riu-se e pousou-o no chão. O gato caminhava perfeitamente bem.
Pedi-lhe para esperar um bocadinho, liguei para o telemóvel da minha irmã e expliquei-lhe a situação. Apesar de desapontada, ela pediu-me para levar o bicho.
- Vamos pensar no nome - disse-me. - Na volta vai ficar Patinhas...
E, com isto, levei o mano do Fred para casa, para daí a uma semana levar ambos comigo numa viagem de 300 km, que teria de fazer de comboio porque não podia levar o gato no expresso.
O Fred só estava comigo há uma semana, e como tal não imaginei qual a reacção que ele teria quando visse o mano. Afinal, tinha passado tão pouco tempo que de certeza se iriam dar bem... Bom, nem por isso.
Quando pousei o novo gatinho no chão, a primeira reacção do Fred foi arquear-se todo e bufar-lhe. Sim, uma coisinha laranja, pequenina, com o pêlo todo no ar e rabo espetado a abespinhar-se todo na presença de um gatinho que, embora fosse seu irmão, da mesma ninhada, tinha quase o dobro do tamanho.
- Fred, é o teu irmão - disse-lhe, como se estivesse a falar para uma criança que fica fula quando vê o irmãozinho bebé chegar a casa da maternidade.
O outro miou desconsolado e o Fred bufou novamente. Parecia estar a dizer-lhe «Põe-te a andar, esta dona é minha!».
Um pouco atrapalhada e sem saber muito bem o que fazer, afastei-me de fininho para deixá-los conhecer-se melhor, mas não consegui conter uma gargalhada quando vi, pelo canto do olho, o Patinhas a tentar andar em cima da carpete: as unhas extra ficavam presas e o desgraçado do gatinho parecia que estava a andar em cima de fita-cola ou de uma outra coisa qualquer pegajosa. Pobrezinho!

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